Foto/Divulgação: Erick Quintanilha
Dados do Ministério da Saúde apontam que a mortalidade materna entre negras é mais que o dobro de mulheres brancas.
A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), realizou uma audiência pública, nesta terça-feira (19/05), para debater a saúde da mulher negra, do acesso ao cuidado à prevenção, e o direito a um sistema de saúde de qualidade. No encontro, a presidente da Comissão, deputada Renata Souza (PSOL) anunciou que vai enviar um requerimento cobrando o governo sobre o orçamento destinado à população negra, com o recorte da saúde, além de buscar alternativas de orçamento para cuidar da saúde da mulher negra, dialogando com o poder público.
“Quando analisamos os dados de violação de direitos contra as mulheres, o Ministério da Saúde aponta que a mortalidade materna entre negras é mais que o dobro de mulheres brancas: 100,38 mortes por 100 mil nascidos vivos, contra 46,56 entre brancas. Números do observatório da saúde pública apontam que mulheres negras têm maior incidência de hipertensão e diabetes e enfrentam dificuldades ao acesso precoce ao pré-natal e diagnóstico de câncer. As mulheres negras sofrem com dois gatilhos importantes que é o machismo e racismo institucional. A gente está numa perspectiva de uma PEC dentro da Casa para criar um fundo de reparação para a população negra em geral, diante do genocídio histórico que nos foi imposto”, diz Renata.
A parlamentar complementou relatando que, desde a inauguração da Sala Lilás na Alerj, já foram realizados cerca de 700 atendimentos a mulheres, em sua maioria negras.
Acolhimento e cuidado
Iya Katiuscia de Yemanjá reforça que mulheres negras têm menos acesso à saúde pública. “Há 18 meses realizamos um projeto e temos feito uma reunião de mulheres negras para discutir políticas públicas que realmente garantam a nossa vida. É um diálogo constante com o poder público e a sociedade. Há violações ao acesso básico. Mulheres negras não conseguem prosseguir com os tratamentos ou mesmo retornar a uma consulta de rotina, sendo negligenciadas com informações sobre sua própria saúde. É fato que nosso corpo é o que cuida, mas perece por falta de cuidados”, afirma.
Pelo Movimento Nacional Unificado de Caxias (MNU), Leninha destaca o trabalho do Projeto Crioula, organização da sociedade civil com 30 anos de trajetória na defesa e promoção dos direitos das mulheres negras. “O MNU é uma das entidades mais antigas do Brasil, mas o Crioula trouxe condições para falarmos sobre saúde. Não somente sobre postos de saúde, mas de algo mais amplo, que abrange um momento estrutural que fez com que nossos filhos fossem cooptados pelo tráfico. E essa mãe tem a saúde afetada por isso. O Crioula apresenta as estruturas da saúde, mas também como chegar às Delegacias de Proteção à Mulher (Deams), ao acesso a medicamentos, entre outros”, enfatiza.
Falando em nome da ONG “Sim, eu sou do meio”, de Belford Roxo, Sirlene Melo, relata vulnerabilidades de mulheres negras no atendimento de saúde, que deveria ser humanizado. “Precisamos falar do SUS e ampliar o seu acesso a locais periféricos. Muitas vezes, o atendimento à mulher negra não demonstra interesse em ouvir as nossas necessidades, com tratamento grosseiro”, comenta.
Em nome da Casa da Cultura, de São João de Meriti, Leila Regina afirma que há pouco conhecimento a respeito da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. “Essa política, que é um marco importante no Brasil, reconhecendo o racismo como um determinante social que dificulta o acesso de pessoas negras aos serviços de saúde, é muito pouco conhecida. Precisamos que o poder público implemente essa política com investimento”, pede.
Já a representante do Centro Social Fusão, em Mesquita, Ana Leila, salienta que não há cuidados com as mulheres negras da terceira idade. “Mulheres com mais de 60 anos não têm acesso a consultas com ginecologistas e, por isso, estão descobrindo tardiamente diagnósticos de câncer”, diz.
Estiveram presentes também Iya Conceição D Lissa; a ouvidora da Defensoria Pública, Fabiana Silva; a Superintendente de Igualdade Social do Rio de Janeiro, Iana Moreira, e representantes da sociedade civil.
Fonte: Alerj

