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Foto/Divulgação: Capa : Adriana Brant

A música instrumental brasileira, em sua vertente carioca, tem como principal trunfo o equilíbrio entre o virtuosismo e o largo poder de comunicação, entre a sofisticação formal e o calor do asfalto. É nessa linhagem de ourivesaria musical que caminham Rodrigo Lessa e Edu Neves, arquitetos de uma sonoridade que não pede licença para fundir o choro tradicional com sotaques de diversas encruzilhadas. Em sua nova criação, o álbum Tempo de Samba, a dupla reafirma a cumplicidade forjada em décadas de estrada – do Nó em Pingo d’Água, de Rodrigo, ao Pagode Jazz Sardinha’s Club, de ambos – e oferece um painel em que choro, jazz, samba e música latina convivem sem arestas.

Rodrigo e Edu – Foto/divulgação

Com produção musical e arranjos de Rodrigo Lessa, o álbum se apresenta como uma suíte de brasilidade urbana, em que o bandolim de Lessa e os sopros (flauta e sax soprano) de Neves dialogam como num entalhe de precisão cirúrgica. Aqui, o “tempo” do título ganha múltiplo sentido (o balanço binário compartilhado com o choro, o clima que convida, a época cíclica de reafirmação do gênero), da mesma maneira que sugere a capacidade elástica de gêneros como o samba, o choro-canção e o maxixe se reinventarem sob o prisma da contemporaneidade. Entre o lirismo e a síncope, o disco desenha uma cartografia musical que ignora fronteiras rígidas, permitindo que o choro respire ares de gafieira moderna e sofisticação camerística.

No repertório, as composições autorais – todas inéditas, à exceção de “No gurufim do Tio Sam” (de Rodrigo Lessa e Edu Neves) – revelam o fôlego criativo da dupla. Temas como “Montuno carioca” (de Rodrigo) e “Maxixe acebolado” (de Edu) são exemplares dessa centrifugação rítmica, enquanto “Samba Infinito” (de Rodrigo) expõe a fluência de uma escrita que investe na exuberância do discurso e na multiplicidade de elementos, mas que jamais abdica da melodia. Há espaço tanto para a homenagem afetiva em “Nelson” (de Edu), quanto para a verve lúdica de “Manual prático para uma boa vadiagem” (de Rodrigo), expressão que evoca a malandragem insolente dos antigos mestres da Lapa.

Rodrigo e Edu – Foto/divulgação

Para sustentar tamanha arquitetura, o time de artesãos escalado é de primeira grandeza. O violão de sete cordas do mestre Carlinhos 7 Cordas e o violão de Luís Louchard formam a base harmônica sob medida para os voos solistas, enquanto a percussão em bloco de Marcus Thadeu, Bruno Barreto e Lucas Videla garante o molho sempre untuoso e bem temperado. É um time bastante coeso e consciente: todos jogam para o conjunto com primoroso senso de equilíbrio.

A excelência técnica do registro também merece nota. Gravado na histórica Companhia dos Técnicos por William Jr., com complementos no estúdio Umuarama, de Ricardo Calafate, o álbum apresenta uma notável transparência sonora. A mixagem de David Brinkworth é particularmente detalhista e garante a escuta de todas as camadas sonoras presentes nos arranjos, sem perder o caldo denso e apimentado do cozido à carioca.

Tempo de Samba, em resumo, é um manifesto de resistência e renovação. Rodrigo Lessa e Edu Neves provam que a música instrumental brasileira, quando tratada com dignidade e frescor, é uma fonte inesgotável de maravilhas. Este é um álbum que se aprecia com o ouvido atento e o corpo em movimento na pista, celebrando a vadiagem pródiga de quem sabe que, para alcançar o mundo, é preciso mergulhar fundo no próprio quintal.

Rodrigo Lessa e Edu Neves vão editar também um álbum com 19 partituras, algumas de temas de “Tempo de samba”, em formato físico e digital, a ser lançado junto com o disco.

Fonte: Belinha Almendra

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