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Com atendimento humanizado e foco na autonomia dos pacientes, Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro se consolidou como referência da reforma psiquiátrica no estado
Nesta segunda-feira (18/5), Dia Nacional da Luta Antimanicomial, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) celebra os avanços conquistados ao longo dos 25 anos da Lei nº 10.216, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Antimanicomial. Sancionada em 2001, a legislação marcou a mudança do modelo centrado em internações de longa permanência para uma rede de cuidado humanizado, comunitário e voltado à reinserção social.
Um dos exemplos dessa transformação no estado é o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade administrada pela Fundação Saúde, vinculada à SES-RJ. O serviço ocupa, desde agosto de 1998, um prédio no bairro da Gamboa, na capital fluminense, e já nasceu alinhado aos princípios da reforma psiquiátrica.

“O CPRJ já foi criado com os preceitos da reforma. Como não havia pacientes moradores nem vínculo com o modelo manicomial, pudemos construir um serviço novo, aberto e voltado ao cuidado em liberdade”, explica o diretor-geral da unidade, Francisco Sayão.
Segundo o médico psiquiatra, desde o início a proposta foi garantir um atendimento universal, sem distinção de diagnóstico, raça, condição social ou qualquer outro fator. “O cuidado humanizado passa justamente pela ausência de preconceito e pela construção de um espaço acolhedor, onde as pessoas possam buscar tratamento sem medo ou constrangimento”, ressalta.

Ao longo das últimas décadas, o CPRJ ampliou as ações voltadas à autonomia dos pacientes. Em 2001, a unidade implantou um programa de geração de trabalho e renda, que segue em funcionamento até hoje. Oficinas terapêuticas e atividades de economia solidária permitem que usuários desenvolvam habilidades, produzindo artesanato, trabalhando em setores internos e tendo acesso a uma fonte de renda.
Destaca-se, ainda, o acervo de mais de 5.600 discos de vinil, muitos deles raros, utilizado como instrumento terapêutico para estimular a memória afetiva e a conexão dos pacientes com a música. Outro símbolo dessa abordagem é o grupo musical Harmonia Enlouquece, que completou 25 anos em abril de 2026 e celebra a trajetória com o lançamento do quinto álbum, O Quinto dos Infernos.

“A pessoa deixa de ser vista apenas como paciente e passa também a ocupar um lugar de produção, convivência e autonomia. Cada oficina busca valorizar o potencial individual e fortalecer o desejo de participação social”, destaca Francisco Sayão.
O trabalho também inclui o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, com ações de acolhimento e bem-estar voltadas a familiares e cuidadores, reconhecendo a importância da rede de apoio no processo terapêutico.
Para o diretor do CPRJ, uma das principais conquistas da reforma psiquiátrica foi a consolidação do cuidado multiprofissional. “Hoje, o tratamento em saúde mental vai além da medicação e considera também aspectos sociais, psicológicos e ocupacionais, fundamentais para a recuperação e adesão do paciente”, explica.
Apesar dos avanços, o preconceito em relação ao sofrimento psíquico ainda persiste. Por isso, datas como o Dia da Luta Antimanicomial seguem essenciais para ampliar o debate público e fortalecer a inclusão.
“O preconceito ainda existe e muitas vezes acaba aprisionando a pessoa naquele lugar de ‘doente mental’. A luta antimanicomial é importante justamente porque promove encontros, troca de experiências e reforça a importância de preservar todos os avanços conquistados até aqui”, conclui o psiquiatra.

