Captura de tela 2026-10-11 114902

Foto Divulgação

Ausência de água tratada e coleta de esgoto aumenta o risco de doenças, prejudica o aprendizado e pode comprometer as oportunidades das futuras gerações.

O acesso ao saneamento básico é fundamental para garantir saúde, qualidade de vida e oportunidades de desenvolvimento durante a infância. No entanto, milhões de crianças brasileiras ainda vivem sem acesso adequado à coleta e ao tratamento de esgoto, uma realidade que amplia a exposição a doenças e compromete o desenvolvimento infantil.

De acordo com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, cerca de 7,2 milhões de crianças de 0 a 6 anos vivem sem acesso à rede de esgoto no Brasil.

A falta de infraestrutura sanitária adequada representa um risco especialmente significativo nos primeiros anos de vida, período marcado pelo desenvolvimento físico e cognitivo. Sem água potável e esgotamento sanitário, as crianças ficam mais vulneráveis a infecções, episódios de desidratação e doenças que poderiam ser evitadas.

Essa relação é explicada em um conteúdo do Saneamento Salva, que destaca a importância do saneamento para a prevenção de doenças e a proteção da saúde infantil.

Falta de saneamento também prejudica a educação

Os impactos da precariedade sanitária vão além da saúde. A falta de acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário também pode prejudicar a frequência escolar, o aprendizado e as oportunidades profissionais na vida adulta.

Estudos do Instituto Trata Brasil apontam que as consequências da ausência de saneamento podem acompanhar crianças e adolescentes ao longo de diferentes etapas da vida.

Um levantamento realizado em parceria com a Ex Ante Consultoria Econômica, em 2024, analisou os impactos da falta de saneamento sobre grávidas, crianças e adolescentes.

Segundo os dados apresentados no estudo, crianças de até 11 anos que vivem sem acesso adequado à água tratada e a instalações sanitárias enfrentam desvantagens no desenvolvimento de habilidades cognitivas. A pesquisa também aponta uma diferença de 46,1% na renda ao longo da vida entre jovens que tiveram acesso ao saneamento durante a infância e a adolescência e aqueles que não contaram com esse serviço.

Os resultados reforçam que o saneamento básico não é apenas uma questão de infraestrutura urbana, mas também um fator relacionado à educação, à redução das desigualdades e às perspectivas econômicas das próximas gerações.

Mais de 100 mil internações infantis em 2024

A dimensão do problema também aparece nos dados de saúde pública. Um estudo do Instituto Trata Brasil aponta que mais de 100 mil crianças de 0 a 9 anos foram internadas no Sistema Único de Saúde (SUS), em 2024, em decorrência de doenças associadas às condições inadequadas de saneamento.

Desse total, mais de 30 mil internações envolveram crianças de 5 a 9 anos, enquanto aproximadamente 70 mil ocorreram entre crianças de 0 a 4 anos.

Para Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, as consequências ultrapassam o período de hospitalização.

“Isso significa menos dias de escola, prejuízo no desenvolvimento cognitivo e um impacto que pode acompanhar essas crianças por toda a vida, inclusive na renda que terão no futuro”, afirma a especialista.

Os dados evidenciam a importância de ampliar o acesso aos serviços de saneamento como medida de prevenção de doenças, proteção à infância e redução da pressão sobre o sistema público de saúde.

Expansão do esgoto reduz internações em Campo Grande

Experiências em diferentes cidades brasileiras mostram que a ampliação do saneamento pode contribuir para melhorar os indicadores de saúde da população.

Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), baseado em informações do Datasus e do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), identificou uma expressiva redução das internações por Doenças Diarreicas Agudas (DDAs) durante o período de expansão da rede de esgoto.

Entre crianças de 0 a 4 anos, as internações passaram de 842, em 2003, para apenas 22, em 2022, uma redução de aproximadamente 97%.

No mesmo período, a população atendida pelo esgotamento sanitário aumentou de cerca de 137 mil para mais de 774 mil pessoas.

Os dados foram divulgados em conteúdos do Campo Grande News e da Águas Guariroba.

Embora a redução das internações tenha ocorrido paralelamente à expansão do esgotamento sanitário, outros fatores também podem influenciar os indicadores de saúde. Ainda assim, os resultados reforçam a relevância dos investimentos em infraestrutura sanitária para a prevenção de doenças.

Saneamento básico é investimento nas próximas gerações

Para quem acompanha de perto as mudanças provocadas pela chegada da rede de esgoto, os benefícios vão além dos números.

Célia de Moraes, moradora do bairro Tiradentes, em Campo Grande, relata as dificuldades enfrentadas pela comunidade antes da implantação do serviço.

“Nasci em Campo Grande e lembro que, até a chegada da rede de esgoto no bairro, muita criança ficava doente e ninguém sabia o porquê. E as fossas trazem muita contaminação, queira ou não, a pessoa vendo ou não, mas vêm doenças. Com a rede de esgoto, tudo isso muda”, conta a moradora.

O depoimento destaca como a ampliação da infraestrutura sanitária pode transformar as condições de vida das famílias, especialmente em comunidades que convivem há anos com a falta de serviços essenciais.

Na avaliação de Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, garantir o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário é uma medida indispensável para proteger a infância e ampliar as oportunidades das próximas gerações.

A universalização do saneamento básico representa, portanto, um investimento em saúde pública, educação e desenvolvimento social. Para milhões de crianças brasileiras, ter acesso a água limpa, banheiros adequados e coleta de esgoto significa mais do que melhores condições de vida no presente: significa também a possibilidade de construir um futuro com mais saúde, dignidade e oportunidades.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *