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Comitiva também visitou o Rio Cricket, em Icaraí, um dos primeiros clubes do esporte no Brasil
Niterói recebeu neste final de semana a visita de uma comitiva internacional liderada por Matthew Featherstone, CEO do Cricket Brasil, que veio ao Parque Esportivo e Social do Caramujo (PESC) para conhecer o único projeto social de críquete do estado do Rio de Janeiro, desenvolvido pelos professores Felipe Santos e Thainara Figueiredo. O segundo esporte mais praticado no mundo – depois do futebol – reúne hoje no Brasil mais de 14 mil adeptos e volta às Olimpíadas em 2028 após mais de cem anos de exclusão. Um dos primeiros clubes da modalidade no país foi o Rio Cricket, fundado em 1872 na capital e presente na cidade-sorriso desde 1897, sendo um dos campos mais antigos do Brasil.
No grupo estavam a Dra. Sarah Fane, médica britânica e líder humanitária da MCC Foundation, reconhecida internacionalmente por utilizar o críquete como ferramenta de transformação social; Edward Haxton, diplomata do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido e atual cônsul-geral britânico no Rio de Janeiro; e Lee Booth, treinador da seleção brasileira de críquete. A vice-prefeita Isabel Swan recepcionou os visitantes, ao lado da diretora do PESC, Sheila Bahia. Os ingleses ficaram tão impressionados que iniciaram conversas sobre uma futura parceria.
“O que acontece aqui é extraordinário. Os professores aqui fazem um grande trabalho em uma estrutura muito bonita. Faltam no Brasil centros esportivos como este, feitos para a comunidade, cheios de crianças felizes e cheios de vida. Fomos recebidos como reis”, exclamou Matthew Featherstone, principal responsável pela popularização desse esporte no nosso país. Ele é britânico, ex-jogador profissional e reside há 26 anos em Poços de Caldas (MG), cidade-sede do Cricket Brasil, do qual é o CEO. Ele e a Dra. Sarah já foram condecorados pela realeza britânica pelos projetos sociais que desenvolvem com o críquete.

Felipe e Thainara foram capacitados por profissionais do Cricket Brasil em fevereiro deste ano. Hoje são alunos desse esporte estudantes do Caramujo e adjacências, captados das três escolas municipais e do colégio estadual do bairro. A unidade também possui outras 20 modalidades esportivas. Nos últimos oito meses, os professores de Niterói já foram duas vezes à sede da confederação brasileira para aprimorarem seus conhecimentos técnicos.
Os visitantes ficaram tão positivamente impressionados com a estrutura do local, o profissionalismo da equipe e a dedicação dos atletas mirins que manifestaram o interesse de transformar o PESC em um polo nacional de treinamento de críquete, a exemplo do que já há em Minas Gerais, e com apoio da comunidade britânica desse esporte.

Os britânicos assistiram a uma demonstração no campo do PESC e interagiram com os alunos do projeto com a intermediação de um tradutor, que é professor de inglês da própria comunidade. De lá, a comitiva foi conhecer o Rio Cricket, onde foram recebidos pela diretora social Renata Azevedo. Os visitantes apreciaram a qualidade do espaço e tiveram a mesma ideia da equipe do projeto no Caramujo: criar meios de conexão dos jovens do projeto com o clube, para a realização de torneios e campeonatos e o resgate da história da cidade com o esporte, que no Brasil perdeu popularidade ao longo das décadas.
“Críquete não é só esporte, mas transformação social. Tanto que o projeto não acontece por meio da Secretaria de Esportes, e sim pela Secretaria de Direitos Humanos, porque visa mais à cidadania do que ao alto rendimento. E temos todas as condições de formar um time profissional para disputar competições nacionais e internacionais”, afirma Prof. Felipe, que se apaixonou pelo críquete devido ao perfil lúdico e também pela característica democrática do esporte. “Quando vejo os alunos praticando, me lembro de quando eu brincava de taco na rua. É um esporte ao alcance de todos, independentemente de gênero, idade e classe social, não exigindo uma estrutura física complexa ou um tipo específico de solo ou piso. Por isso que o lema do críquete é: em qualquer lugar, por qualquer pessoa, a qualquer hora”.

Para a Prof. Thainara, a preocupação inicial era atrair o interesse dos jovens por uma modalidade nova no parque esportivo e praticamente desconhecida, porém foi surpreendida. “Hoje temos bastante alunos matriculados e praticantes ativos. Os pais vieram saber do que se tratava e ficaram felizes quando viram a atividade com tacos igual a eles brincavam na infância. Mesmo o esporte tendo um nome diferente e elitizado, quando chegam aqui veem que parece brincadeira de criança”, conta ela, afirmando que o críquete atraiu crianças neurodivergentes, com dificuldade de coordenação motora e de concentração, que não conseguiam se adaptar em outros esportes.
Renata Aguiar de Albuquerque, 37 anos, é mãe de Bruno Calebe, de 14, aluno do projeto e que possui deficiência intelectual: “Ele caía muito e o críquete o ajudou a melhorar o equilíbrio. Além disso, está mais alegre e sociável. Os professores e a equipe do PESC são muito legais e acolhedores”, comentou ela. “O esporte é maravilhoso e está fazendo muito bem ao meu filho. Eu não conhecia o críquete e também me encantei. O rendimento dele na escola melhorou e foi elogiado pela diretora. Melhorou a disciplina e a concentração”, contou a auxiliar de escritório Rosemeire de Brito, 52 anos, mãe de Enzo, de 13, estudante do oitavo ano do ensino fundamental. “Gosto porque é diferente de tudo que já tinha visto. Acho que me ajuda a diminuir o estresse e o mau humor”, revela o jovem.
AS ORIGENS
O críquete surgiu na Inglaterra do século XVII, inspirado no atoolball, um jogo recreativo adaptado pelos nobres. As primeiras regras datam de meados da década de 1780, as quais foram modificadas e atualizadas ao longo dos anos. Integrou os Jogos Olímpicos de Verão na edição Paris 1900, mas foi retirado do quadro pela indefinição de algumas regras. Outro fator para a saída foi o baixo número de adeptos. Isso porque o críquete não era um esporte muito praticado profissionalmente no mundo, sendo a Inglaterra, a Índia e o Paquistão os principais adeptos.
No Brasil, esse esporte começou em meados de 1800, por ingleses residentes no Rio de Janeiro. Em função da proximidade entre a monarquia brasileira e a comunidade britânica, o esporte passou a ser praticado no gramado da casa da princesa Isabel, o qual se tornou o primeiro campo adequado à prática. Posteriormente, com a instituição do Brasil República e a mudança da família real, o campo se tornou uma instalação permanente para a prática de futebol. Com isso, outros foram construídos, como o de Niterói pela Associação Rio Cricket, que comemorou 154 anos em agosto. A partir daí, o esporte começou a ganhar adeptos também em São Paulo, culminando na formação de novos clubes em todo o país.
AS REGRAS
São duas equipes de 11 jogadores em um campo sem dimensão oficial definida, porém amplo, de formato oval, com um corredor ao centro. A partida inicia com dois atacantes com um taco cada, sendo um rebatedor (striker) e o outro não rebatedor (nonstriker), posicionados no pitch (extremidades do corredor), onde se localizam as casinhas (wicket). Pode ser disputado em três formatos, os quais variam em sua duração: T2 (3h), One-Day (8h) e Test cricket (5 dias). O objetivo é marcar mais corridas do que o adversário.
Uma equipe inicia arremessando e a outra rebatendo. Depois, quando todos os rebatedores de uma equipe forem eliminados ou os turnos acabarem, alternam-se essas posições (arremesso e rebatida), ocorrendo uma segunda entrada. Quando o rebatedor se desloca do ponto A ao B, contabiliza-se uma corrida. Se a bola rebatida por ele chegar ao perímetro do campo, automaticamente são contabilizadas quatro corridas. No entanto, se ela for além do perímetro, são contabilizadas seis corridas, sendo este o maior score obtido no jogo.
Os jogadores podem ser eliminados da partida quando ocorrem as seguintes situações: derrubar a casinha; quando a bola derrubar a casinha antes do jogador chegar ao ponto B; apanhar a bola sem que ela tenha tocado o chão; e a bola em direção à casinha tocar nas pernas do jogador.
Fonte: Irma Lasmar

