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Foto/divulgação: Erick Quintanilha

No Dia Estadual do Tradutor e Intérprete de Libras, celebrado em 30 de setembro, profissionais contam como se preparam para traduzir sessões, debates e conteúdos da Assembleia Legislativa

Para que toda a programação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) também seja acessível à comunidade surda, o trabalho dos intérpretes de Libras começa muito antes da informação chegar à tela da TV Alerj. No dia 30 de setembro, data instituída no calendário do Estado como o Dia Estadual do Tradutor e Intérprete de Libras, a atuação desses profissionais ganha destaque pela responsabilidade de traduzir, muitas vezes em tempo real, assuntos que vão de projetos de lei a discussões sobre temas que fazem parte da vida da população fluminense.

Há mais de 20 anos trabalhando como intérprete de Libras, Bernardete Araújo conhece a preparação necessária para acompanhar essa rotina. Antes das transmissões, ela consulta a pauta, estuda os assuntos que serão discutidos, pesquisa termos e sinais e, quando necessário, troca informações com outros profissionais.

A preparação envolve desde o vocabulário relacionado aos temas da sessão até detalhes que fazem diferença na compreensão da interpretação. Na televisão, por exemplo, roupa preta, unhas claras e a ausência de acessórios ajudam a destacar os movimentos das mãos. O enquadramento também precisa permitir a visualização das mãos, dos braços, do rosto e das expressões.

“Não é só saber Libras. A gente precisa entender o que está sendo dito, conhecer o assunto, pesquisar os termos e pensar em como aquela informação vai ser transmitida para que a pessoa surda realmente compreenda o contexto”, explica a intérprete.

O preparo por trás da interpretação

Isso acontece porque Libras não é uma tradução palavra por palavra do português. É uma língua com estrutura própria, que utiliza recursos visuais e espaciais e diferentes formas de construção de sentido. Entre esses recursos estão os classificadores, que permitem representar visualmente características, formas, movimentos e disposição de pessoas ou objetos. Por isso, interpretar exige domínio da língua, mas também capacidade de compreender a situação comunicativa e fazer escolhas que tornem a mensagem clara para quem está acompanhando.

Nas transmissões ao vivo, esse trabalho acontece simultaneamente à fala. O intérprete precisa ouvir, compreender e construir a interpretação enquanto a discussão acontece, sem perder informações ou o contexto do que está sendo dito.

Quando a informação é pública

Na TV Alerj, os intérpretes participam de transmissões ao vivo e gravadas e de diferentes conteúdos produzidos pela Assembleia. A presença também se estende a programas e podcasts da Rádio Alerj.

O trabalho está inserido em um contexto mais amplo de garantia de acessibilidade. No Estado do Rio de Janeiro, a Lei Estadual 3.601/2001 assegurou às pessoas surdas o direito de atendimento em órgãos públicos estaduais por meio de Libras. A norma foi alterada pela Lei 8.013/2018, que passou a prever servidor proficiente em Libras e autorizou a criação de uma Central Estadual de Intérpretes para situações em que o órgão não disponha desse profissional. A mesma lei determina ainda que eventos oficiais promovidos por órgãos estaduais contem com intérpretes de Libras.

Na prática de uma transmissão legislativa, isso significa fazer com que uma informação produzida dentro da Assembleia também possa ser acompanhada por quem tem a Libras como língua de acesso.

Inclusão e acesso à informação

Para Ronise Oliveira, coordenadora do Coletivo da Diversidade da Pessoa Surda Idosa do Rio de Janeiro, a presença de um intérprete em uma transmissão pública representa mais do que tornar o conteúdo compreensível. É uma forma de garantir que a comunidade surda também ocupe os espaços de discussão da sociedade..

“O acesso à informação política em Libras é uma forma de garantir que a população surda possa acompanhar o que está acontecendo na sociedade, conhecer seus direitos, entender as decisões que impactam sua vida e participar dos debates públicos. Quando a informação é disponibilizada em sua própria língua, a pessoa surda ganha mais autonomia para formar sua própria opinião e participar da vida política e social”, comentou Ronise.

Participação nos espaços de decisão

Bernardete enxerga essa relação de forma ainda mais evidente durante os períodos eleitorais. A possibilidade de acompanhar propostas, debates e manifestações de candidatos em Libras permite que pessoas surdas tenham acesso às informações que fazem parte do processo de escolha.

Mas a participação política não se resume às eleições. A atividade legislativa é contínua, assim como os debates sobre temas que afetam diretamente a população. Sessões plenárias, reuniões de comissões, audiências públicas e demais conteúdos produzidos pela Alerj levam ao público discussões sobre direitos, serviços e políticas públicas.

“Hoje já tem candidatos surdos, então eles estão nessa militância”, observa Bernadete. Para ela, a presença de pessoas surdas nesses espaços também representa um avanço na participação política da comunidade e amplia as possibilidades de atuação.

Fonte: Alerj

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