Foto: Thiago Lontra
Especialista do Departamento Médico da Alerj orienta sobre prevenção e destaca que crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis durante a estação.
A chegada das frentes frias ao Estado do Rio de Janeiro traz um cenário que vai além da queda nas temperaturas. Para milhares de pessoas que convivem com doenças respiratórias, como a asma, o inverno, período que vai de junho a setembro, representa um momento de maior atenção. O ar frio e seco, aliado ao aumento da circulação de vírus respiratórios e a permanência em ambientes fechados, favorece o surgimento de crises e pode agravar o quadro clínico de crianças, idosos e pacientes com doenças crônicas.
Em julho, por exemplo, a cidade do Rio registrou recorde anual de frio, com 10,4°C, segundo levantamento do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). A pneumologista Danielle Vasconcelos, do Departamento Médico da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), explica por que isso acontece e orienta a população sobre os principais cuidados a serem tomados nesta época do ano.
Segundo a especialista, o frio modifica o comportamento das vias aéreas e desencadeia reações que podem comprometer a respiração. “O frio faz o ar ficar mais seco e mais denso. Quando respiramos esse ar, os brônquios reagem se contraindo como um mecanismo de defesa. Em quem já tem asma ou outras doenças respiratórias, essa contração acontece de forma exagerada, provocando falta de ar, chiado e tosse”.
Ela explica ainda que o inverno favorece outro fator importante: a permanência em ambientes fechados. “Nessa época, as pessoas ficam mais tempo dentro de casa, muitas vezes com pouca ventilação. Isso aumenta o contato com poeira, mofo, ácaros e vírus respiratórios, que são grandes desencadeadores das crises”.
Crianças e idosos são os mais vulneráveis
Entre todos os pacientes, dois grupos exigem atenção especial: crianças e idosos.
De acordo com Danielle Vasconcelos, as crianças possuem vias aéreas menores e um sistema imunológico ainda em desenvolvimento. Por isso, pequenas inflamações podem provocar importantes dificuldades respiratórias.
Já os idosos apresentam uma resposta imunológica naturalmente mais lenta e, muitas vezes, convivem com outras doenças, como problemas cardíacos, o que aumenta o risco de complicações, internações e pneumonias durante o inverno.
A pneumologista alerta que alguns sinais indicam a necessidade de procurar atendimento médico imediatamente. “Falta de ar que não melhora, chiado intenso, dificuldade para completar frases, lábios arroxeados ou muito esforço para respirar são sinais de alerta. Nas crianças, quando as costelas ou a barriga afundam durante a respiração, é preciso procurar assistência médica sem demora”, orienta.
Uma vida inteira convivendo com a asma
A aposentada Margareth Rodrigues, de 64 anos, conhece bem os desafios impostos pela doença. Ela convive com a asma desde o primeiro ano de vida e lembra que a infância foi marcada pelas limitações provocadas pelas crises.
Enquanto via as irmãs brincarem, muitas vezes precisava permanecer sentada para evitar falta de ar. “O frio costuma agravar muito. Um simples resfriado já pode desencadear uma crise. O que mais me incomoda durante o inverno é a tosse”, conta.
Ao longo da vida, Margareth precisou ser internada diversas vezes. Em uma das crises, foi levada ao hospital duas vezes no mesmo dia e precisou de oxigênio. Ela também enfrentou cinco episódios de pneumonia relacionados ao problema respiratório.
Hoje, alguns hábitos fazem parte da rotina para reduzir os riscos. “Evito pegar friagem, procuro estar sempre bem agasalhada e uso meias para manter o corpo aquecido. Mas o principal foi seguir corretamente o tratamento com o pneumologista. A bombinha mudou minha vida. Passei muitos anos sem crises graças ao acompanhamento médico.”
O olhar de uma mãe
Se para quem convive com a doença os desafios já são grandes, para os pais eles costumam ser ainda mais angustiantes. Foi essa realidade que Rafaela Rodrigues enfrentou quando o filho, Nicollas, de 8 anos, começou a apresentar crises respiratórias ainda pequeno.
Ela lembra que o diagnóstico veio depois de sucessivos atendimentos de urgência e de uma investigação médica. “Vê-lo lutando para respirar era uma das piores sensações que já vivi como mãe. Antes do diagnóstico, nós não sabíamos o que estava acontecendo e vivíamos momentos de muito desespero.”
Segundo Rafaela, o inverno é a época que exige mais atenção da família. “Hoje vejo essa estação com outros olhos. Evitamos sair nas noites muito frias, mantemos a casa sempre limpa e arejada, fazemos lavagem nasal e seguimos todas as orientações médicas para evitar novas crises.”
O acompanhamento especializado transformou a rotina da família. “Hoje ele está há dois anos sem nenhuma crise. Brinca, pratica atividades físicas e leva uma vida normal. Aprendemos que a asma não tem cura, mas tem controle, e que nunca devemos interromper o tratamento porque a criança melhorou.”
Prevenção é o melhor caminho
A pneumologista Danielle Vasconcelos reforça que um dos erros mais frequentes é abandonar o tratamento quando os sintomas desaparecem. “O tratamento contínuo mantém a inflamação das vias aéreas sob controle. Quem utiliza corretamente a medicação tem menos crises, evita internações e ganha qualidade de vida”.
Entre as principais recomendações para enfrentar o inverno estão manter a vacinação em dia, utilizar corretamente os medicamentos prescritos, hidratar-se, ventilar os ambientes, evitar o acúmulo de poeira, mofo e ácaros e reduzir mudanças bruscas de temperatura.
Para a especialista, a principal mensagem é que a prevenção deve fazer parte da rotina. “Cuidar da respiração no inverno não deve acontecer apenas durante uma crise. Acompanhamento médico, tratamento contínuo e atenção aos primeiros sintomas fazem toda a diferença para proteger crianças, idosos e todos aqueles que convivem com doenças respiratórias”, conclui.

