Foto/divulgação: Alex Ramos
Encontro abordou vieses de gênero e apresentou estudos que mostram diferenças na avaliação de comportamentos semelhantes entre homens e mulheres.
No mês do Agosto Lilás, período de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, a Escola do Legislativo (Elerj), da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), promoveu uma discussão sobre os julgamentos relacionados às mulheres e a forma como comportamentos femininos são interpretados no ambiente profissional. Durante a palestra, a juíza federal Alessandra Belfort apresentou estudos e relatos pessoais para mostrar como diferenças de gênero podem influenciar a percepção sobre autoridade, comportamento e expressão de emoções.
A discussão mostrou que essas diferenças de percepção não se limitam a situações de violência ou a posições específicas de poder. Elas também aparecem em comportamentos cotidianos, como a forma de expressar emoções, ocupar espaços de autoridade e se posicionar no ambiente profissional. Para demonstrar como esses julgamentos podem ocorrer na prática, a palestrante apresentou pesquisas que analisam a maneira como homens e mulheres são avaliados diante das mesmas situações.
Um estudo realizado nos Estados Unidos analisou como homens e mulheres são percebidos quando demonstram raiva no ambiente de trabalho. Para isso, pesquisadores gravaram atores seguindo o mesmo roteiro, no qual os personagens demonstravam irritação após perderem uma conta importante de um cliente. Parte das cenas foi interpretada por homens e outra parte, por mulheres. Em um dos experimentos, os pesquisadores também variaram os cargos ocupados pelos personagens, de estagiários a CEOs, para verificar se a posição hierárquica influenciaria a avaliação sobre a manifestação de raiva.
Os resultados apontaram diferenças significativas. Quando um homem demonstrava raiva, sua reação tendia a ser considerada firme e justificável diante da situação. A irritação era associada ao contexto: ele havia perdido uma conta importante e, portanto, teria motivos para estar contrariado. Já quando a mesma cena era interpretada por uma mulher, a reação era avaliada de maneira mais negativa. As participantes e os participantes tendiam a descrevê-la como descontrolada ou exagerada, além de considerar que ela havia perdido status ao demonstrar raiva.
A diferença também aparecia na explicação dada para o comportamento. No caso dos homens, a reação era atribuída às circunstâncias. Já no caso das mulheres, a raiva era mais associada ao caráter e à personalidade. Em vez de ser compreendida como uma resposta a uma situação específica, era interpretada como uma característica da própria mulher. O padrão foi observado independentemente do cargo ocupado, do estágio à posição de CEO. Para a palestrante, o resultado demonstra como comportamentos semelhantes podem receber interpretações diferentes de acordo com o gênero.
Outro ponto apresentado durante a palestra foi que os vieses de gênero não são reproduzidos exclusivamente por homens. Mulheres também podem reproduzir julgamentos e padrões relacionados às expectativas sobre o comportamento feminino. Segundo a juíza, esse aspecto não pode ser desconsiderado ao discutir a questão, já que os estudos apresentados mostram a participação de mulheres nesse tipo de avaliação. “Não foram só os homens que fizeram essa escolha. As mulheres também participaram desse processo e também estão sujeitas a esses vieses. É um dado que a gente não pode desconsiderar quando discute essa questão”, disse.
Mulheres são mais interrompidas em espaços de poder
Outro estudo apresentado durante a palestra analisou transcrições de audiências da Suprema Corte dos Estados Unidos para investigar as interrupções durante as falas dos ministros. Os pesquisadores examinaram as transcrições e contabilizaram quem interrompia quem durante as manifestações. Os dados apontaram que as mulheres eram interrompidas cerca de três vezes mais do que os homens durante suas falas. As interrupções não partiam apenas dos colegas ministros: advogados homens também interrompiam as magistradas enquanto elas falavam ou apresentavam seus votos.
Mesmo ocupando uma posição de autoridade dentro da Corte, as mulheres continuavam sendo interrompidas. O estudo mostra, assim, que a posição hierárquica não é necessariamente suficiente para impedir que os vieses de gênero influenciem as relações profissionais.
A questão também foi relacionada à realidade brasileira durante a palestra. A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia já chamou atenção para o problema ao comentar estudos sobre interrupções de mulheres em espaços de poder. O episódio foi utilizado para mostrar que, em determinadas situações, mulheres em posições de autoridade enfrentam dificuldades até mesmo para concluir suas falas.
Quando ser mulher fala mais alto que a competência
Alessandra também compartilhou uma experiência do início da carreira para mostrar como comportamentos e julgamentos diferentes podem ser direcionados às mulheres no ambiente profissional.
“Eu era juíza federal substituta do 4º Juizado Especial Federal e lá tínhamos várias audiências, de conciliação, de instrução. Como eram várias, eu ficava sentada no lugar onde o juiz fica. E qualquer pessoa do Direito que já tenha participado de uma audiência sabe que o local onde as pessoas se sentam já é estabelecido. Eu estava sentada na minha cadeira porque era a juíza daquela causa. Em determinado momento, entrou um advogado. Os advogados entravam e saíam conforme as audiências iam mudando. Até que um advogado entrou na sala, chegou lá na ponta, esticou o dedo para mim e falou: ‘Você não é juíza, não, né?’”, contou.
Fonte: Alerj

