Cartilha da Águas do Rio orienta sobre espécies encontradas na Lagoa - Foto Divulgação
Fim do despejo de 216 mil litros de esgoto por hora transforma o cartão-postal carioca em rota de observação ambiental e abre mercado promissor
Quem percorre as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas hoje encontra uma cena que, há pouco tempo, parecia improvável: capivaras e aves exóticas circulando sobre águas transparentes. Historicamente associada à poluição e à mortandade de peixes, a lagoa passou a exibir sinais consistentes de recuperação ambiental após o fim do despejo contínuo de esgoto. O novo cenário já desperta o interesse do setor turístico. Guias da Zona Sul estão estudando a criação de roteiros estruturados de ecoturismo voltados à observação da fauna local, com apoio de uma cartilha elaborada por especialistas.

A publicação, elaborada pelo biólogo Mario Moscatelli em parceria com a Águas do Rio, nasceu para atender a uma demanda crescente dos próprios profissionais de turismo. Com a melhoria da qualidade da água e o retorno de diversas espécies ao ecossistema, os guias começaram a notar um interesse expressivo de grupos pelo turismo de avistamento de animais, com destaque especial para as capivaras. A cartilha detalha quem são esses novos habitantes e é distribuída aos guias, que repassam o material diretamente aos visitantes.
A partir dessa troca, ganhou força uma ideia conjunta: criar rotas de visitação focadas na biodiversidade local. O modelo de passeio, amplamente consolidado no exterior, ainda é pouco explorado no cartão-postal carioca e tem potencial para movimentar a economia local.

“Quando comecei a plantar mangue aqui, achavam que eu era maluco. Hoje, passei de maluco para visionário. Ver espécies como a carqueja-de-bico-fechado e as capivaras ocupando a lagoa mostra o quanto esse ecossistema se recuperou. Agora, os guias de turismo têm um papel fundamental para transformar essa riqueza natural em oportunidades, gerando emprego e renda a partir da conservação”, afirma Mário Moscatelli, responsável pelo Manguezal da Lagoa, projeto apoiado desde 2021 pela Águas do Rio que já revitalizou 7 mil metros quadrados de área nativa.
Novas oportunidades à vista
A recuperação da Lagoa Rodrigo de Freitas já começa a gerar reflexos para quem vive do turismo. O biólogo e guia de turismo Yan Hess, que cresceu no entorno da lagoa e conduz experiências voltadas à natureza carioca, diz que o retorno da fauna tem atraído cada vez mais a atenção dos visitantes. Ao voltar ao Rio após uma década, encontrou um cenário muito diferente, que enxerga como terreno fértil para novos roteiros de ecoturismo.

“A capivara é um grande atrativo. Ela desperta perguntas, aproxima as pessoas da natureza e ajuda a contar a história da recuperação da Lagoa. Existe um potencial enorme para desenvolver produtos turísticos ligados a essa experiência”, afirma.
Para Samuel Rodrigues dos Santos, guia de turismo há 13 anos, a transformação também pode ser medida pela mudança no discurso de quem apresenta a cidade aos visitantes. Há seis anos, ele precisou explicar a turistas estrangeiros uma cena de mortandade de peixes causada pela poluição. Hoje, diz, a conversa é outra.
“Quando passo por aqui com grupos, vejo as pessoas fotografando a paisagem, observando os animais e querendo entender o que aconteceu para a Lagoa chegar a esse estado. Isso mostra como a relação das pessoas com esse espaço mudou”, afirma.
Esgotamento sanitário é a chave para recuperação do ecossistema
Por trás das águas mais limpas, há uma transformação que acontece debaixo da terra. A modernização de 13 estações elevatórias e o reforço do cinturão de proteção da Lagoa Rodrigo de Freitas passaram a impedir o lançamento de 216 mil litros de esgoto por hora no ecossistema. A intervenção faz parte dos R$ 6,3 bilhões já investidos pela Águas do Rio em saneamento básico desde o início da concessão.
“Nosso foco operacional na região foi garantir a resiliência do sistema de esgoto. Ao estancar os lançamentos irregulares e investir na modernização das estruturas existentes, estabilizamos o ecossistema local. O saneamento operando em sua capacidade máxima não apenas resolve um passivo ambiental histórico, mas atua diretamente como um ativo financeiro e indutor de mercado para o turismo carioca”, destaca Renan Mendonça, diretor-executivo da Águas do Rio.
Livre do estigma da poluição, a Lagoa ressurge como prova definitiva de que saneamento e desenvolvimento caminham lado a lado. Ao estancar o descarte de esgoto, o saneamento não apenas recuperou o ecossistema, mas destravou um novo vetor de desenvolvimento econômico e turístico. O espelho d’água da Zona Sul prova, na prática, que o meio ambiente preservado é o maior ativo para o futuro do Rio.

