download (11)

Arquivo pessoal do Terreiro - Foto/divulgação

No mês de combate à intolerância religiosa, terreiro de Candomblé prova que solidariedade não tem religião 

No mês dedicado ao combate à intolerância religiosa, o Abril Verde, uma iniciativa nascida dentro de um terreiro de Candomblé em Nilópolis, na Baixada Fluminense, mostra que fé e solidariedade caminham juntas, independentemente de quem bate palma ou fecha a porta.

O Projeto Curupapá de Maria Mulambo, vinculado ao Ilê Asé Sakpata Ilekunle, distribui quentinhas, cestas básicas e apoio social a cerca de 400 pessoas por mês entre os moradores em situação de vulnerabilidade da região. Mais do que comida no prato, o projeto oferece escuta, amparo espiritual e, quando necessário, faz visitas domiciliares para àqueles que não conseguem chegar até o terreiro.

Uma ordem espiritual que virou missão social

À frente de tudo isso está Pai Bruno, líder espiritual do Ilê Asé Sakpata e alguém que conhece de perto o que é não ter para onde ir. Ele mesmo já viveu em situação de rua, e carrega essa experiência como parte do que o move até hoje.

“Ter vivido em situação de rua me fez rever conceitos humanitários que vão além de só acolher ou de ajudar a alimentar. Me faz partir para dar dignidade e esperança a quem não tem”, conta Pai Bruno.

O projeto nasceu há cinco anos a partir de uma orientação espiritual recebida pela entidade Maria Mulambo, que Pai Bruno descreve como a figura matriarcal do terreiro. Segundo ele, a ordem era clara: quem chegasse ao ilê em busca de ajuda deveria ser atendido da mesma forma que os próprios filhos de santo da casa.

Ejigbo Foto/divulgação

“A ordem espiritual que recebi foi justamente dessa entidade, que hoje representa a figura matriarcal do nosso Ilê Asé. O cuidado é realmente de mãe, cada detalhe, cada acolhimento, cada ajuda alimentar”, diz o líder espiritual.

Abril Verde e o que ele representa para projetos como este

A data tem respaldo legal no Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) aprovou o projeto de lei que institui o Abril Verde, mês dedicado a ações de combate, prevenção e conscientização sobre a intolerância religiosa. A norma garante a inviolabilidade de consciência e de crença, com livre manifestação do sentimento religioso, livre exercício dos cultos e proteção aos locais de culto e suas liturgias.

“Compreendemos que a intolerância religiosa não pode ser combatida apenas pela via da repressão e da penalização. Um dos caminhos é a via da educação, da conscientização e do compromisso do Estado”, afirmou a deputada Renata Souza (PSol), uma das autoras do projeto.

Para o Projeto Curupapá, esse reconhecimento chega como um alento, mas não apaga o que já foi enfrentado na prática.

Preconceito não parou o projeto

O Projeto Curupapá enfrentou, e ainda enfrenta, resistência por ser conduzido por um terreiro de Candomblé. Pai Bruno reconhece que o preconceito chegou a se intensificar em certos períodos, mas garante que o projeto nunca recuou.

“Infelizmente, vivemos num país laico somente de nome. Alguns anos atrás estava bem pior, mas conseguimos nos manter e o projeto segue firme como sempre esteve”, afirma.

Quem está por trás do projeto

Toda a operação é tocada por filhos de santo do Ilê Asé e por colaboradores próximos que estão na causa desde o início. O projeto não recebe apoio governamental e sobrevive de recursos próprios e de doações de pessoas solidárias.

“Precisamos de mais para realizar mais. Hoje o projeto pede ajuda e socorro para que possamos manter sempre ativo esse trabalho. É um grito de socorro”, alerta Pai Bruno.

foto/Divulgação

Uma família que perdeu tudo na chuva e recomeçou

Entre os inúmeros casos que marcaram o projeto, Pai Bruno lembra de uma família que morava às margens de um rio de esgoto no bairro Chatuba, em Mesquita. Depois de um temporal, perderam o barraco e tudo que tinham conquistado com o trabalho de reciclagem. De manhã cedo, uma mãe com cinco filhos e um recém-nascido apareceu no portão do terreiro, todos encharcados, sem ter para onde ir.

“Saímos de casa em casa pedindo doações de roupas infantis e eletrodomésticos. Os alimentos foram por nossa conta própria, e conseguimos colocar a família numa casa onde arcamos com o aluguel”, relembra Pai Bruno.

Hoje, essa família está bem. As crianças estudam e estão formalmente amparadas. É esse tipo de história que, segundo Pai Bruno, justifica cada esforço, cada doação pedida e cada porta que ainda precisa ser aberta.

Fonte: Ana Magal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *