Foto Divulgação Arquivo Pessoal
Juíza Federal Alessandra Belfort explica como percepções culturais ainda influenciam a autoridade feminina em posições de poder
O debate sobre a presença feminina em posições de liderança vai além de avanços numéricos e abre espaço para reflexões mais profundas sobre poder, autoridade e os desafios ainda enfrentados por mulheres em cargos de decisão.
Embora a presença feminina em posições de liderança tenha crescido nas últimas décadas, especialistas apontam que ainda existem diferenças na forma como homens e mulheres são percebidos quando exercem autoridade.
Para a juíza federal Alessandra Belfort, pesquisadora das relações entre emoção e tomada de decisão, parte dessa percepção está ligada a estereótipos históricos que continuam influenciando a forma como a liderança feminina é interpretada.
“Quando falamos sobre mulheres em posições de poder, não estamos discutindo apenas o acesso ao cargo. Também estamos falando sobre como essa autoridade é percebida, questionada e, muitas vezes, testada de forma diferente”, afirma.
Mestranda em Psicologia Forense pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Belfort pesquisa como as emoções influenciam processos decisórios, especialmente no contexto judicial. Segundo ela, um dos estigmas mais persistentes é a ideia de que mulheres seriam “emocionais demais” para funções que exigem decisões complexas.
“Existe um mito muito difundido de que emoção e racionalidade são opostos. A ciência mostra justamente o contrário. As emoções fazem parte do processo de decisão e ajudam a organizar prioridades, avaliar riscos e interpretar contextos”, explica.
Para a magistrada, esse debate vai além da discussão sobre gênero. “O debate sobre emoção não é apenas uma questão de gênero. É uma questão sobre como as decisões humanas são tomadas”, pontua.
O peso do estereótipo da “mulher emocional”
Na prática, segundo a magistrada, o problema não está na emoção em si, mas na forma como ela é interpretada socialmente.
“Quando um homem demonstra intensidade ou firmeza, isso costuma ser percebido como liderança ou convicção. Quando uma mulher demonstra a mesma intensidade, muitas vezes surge a leitura de que ela está sendo excessivamente emocional”, observa.
Esse tipo de interpretação cria uma pressão adicional sobre mulheres em posições de liderança, que acabam tendo que equilibrar constantemente a forma como expressam autoridade.
“Muitas profissionais relatam a necessidade de administrar a própria imagem o tempo todo. Existe um cuidado para não parecer dura demais, mas também não parecer sensível demais. Esse equilíbrio raramente é cobrado com a mesma intensidade dos homens”, diz.
Autoridade não significa ausência de emoção
De acordo com Belfort, a discussão sobre emoção e liderança precisa ser aprofundada, especialmente em ambientes que envolvem responsabilidade e tomada de decisão.
“Autoridade não significa ausência de emoção. Autoridade está relacionada à capacidade de decidir, assumir responsabilidade e conduzir processos complexos. A emoção, quando compreendida, pode inclusive ampliar a qualidade das decisões”, afirma.
Esse tema, segundo ela, tem ganhado cada vez mais espaço nas pesquisas em psicologia e comportamento.
“No campo da psicologia forense, sabemos que decisões humanas, inclusive no Judiciário, não são processos totalmente mecânicos. Emoções, valores e experiências fazem parte da forma como interpretamos situações. O importante é desenvolver consciência sobre esses fatores”, explica.
Diversidade de perspectivas fortalece instituições
Para a magistrada, ampliar a presença feminina em espaços de liderança também contribui para decisões mais completas e instituições mais conectadas com a realidade social.
“Quando diferentes experiências participam da tomada de decisão, ampliamos as perspectivas e enriquecemos os processos institucionais. Liderança não é uniformidade, é capacidade de integrar diferentes visões”, afirma.
Segundo Belfort, essa reflexão é fundamental para a construção de ambientes mais equilibrados e conscientes.
“Não se trata apenas de reconhecimento simbólico. É uma reflexão sobre como construímos ambientes de decisão mais maduros, mais conscientes e mais preparados para lidar com a diversidade de experiências humanas”, conclui.
IMAGEM: ARQUIVO PESSOAL
