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Pergunta: Ao dar recompensas ou elogios, traz melhoras? Ou mesmo punições são capazes de piorar um comportamento? Há quem diga o contrário. A aleatoriedade complica a resposta, e costuma enganar nossa intuição.
Amos Tversky, pioneiro da ciência cognitiva, estudou e esclareceu os tipos de percepções equivocadas sobre a aleatoriedade que alimentam muitas das falácias comuns. Ou seja, raciocínios lógicos falhos, enganosos que aparentam ser algo e não são.
Vemos um jogador de futebol que faz uma jogada incrível, elogiado pelo treinador logo após o lance, quase sempre não consegue repetir. O elogio não funcionou? Se todo elogio ou recompensa trouxesse melhoras constantes, teríamos gols de Puskás toda rodada. O que acontece então é que no jogo seguinte, tende a jogar “menos absurdo”, mais perto da média dele. Há quem diga que quando esse jogador faz uma jogada ruim, e ele recebe uma chamada ríspida de atenção, tende a melhorar seu desempenho.
A resposta se encontra num fenômeno chamado regressão à média. Isto é, em qualquer série de eventos aleatórios, há uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordinário, uma observação extrema, seja seguido, em virtude puramente do acaso, por um acontecimento mais próximo do “real”, da média, do comum.
Cada jogador, iniciante ou em seu auge, possui uma certa habilidade com a bola. Melhorar seu nível envolve diversos fatores e requer muita prática. Portanto, embora sua habilidade esteja melhorando lentamente ao longo dos treinos, a variação não seria perceptível de um jogo para o outro.
Esse mesmo erro aparece quando interpretamos ‘fracassos’ e ‘sucessos’ como sinais definitivos. Será que fazemos outros julgamentos equivocados quando deparados com a incerteza? Os ditos sábios dizem que se deve tentar até o sucesso ser atendido. Maquiavel expôs, em O príncipe, que o sucesso valeria a todo custo. Quando devemos desistir? Quantas tentativas para realização de um desejo seriam plausíveis para abandoná-lo? O primeiro Harry Potter, de J.K. Rowling, foi rejeitado por nove editoras diferentes até começar a ser produzido.
Por isso, pessoas que alcançam bons resultados em qualquer área quase sempre pertencem a um mesmo grupo: o das que persistem. Grande parte do que vivemos, êxitos na carreira, nos investimentos e nas escolhas pessoais, grandes ou pequenas, nasce da combinação entre acaso (aleatoriedade) e competência, preparo e dedicação. Assim, o que enxergamos como “realidade” não é um espelho fiel de indivíduos ou contextos, mas uma percepção turvada pelos impactos aleatórios de fatores externos imprevisíveis e mutáveis.
No fim, há um equilíbrio: reconhecer o papel do acaso sem abrir mão de treinar, ajustar e insistir. Como diria o poeta, Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, vida leva eu”, os olhares da aleatoriedade falariam que sua vida seria em sua própria média, com alguns altos e baixos. Seguindo a dica: “Se não tenho tudo que preciso, de mansinho lá vou eu”, expõe a necessidade da melhoria contínua, dessa prática diária de pequenos avanços, sem desespero, apenas deixando rolar, os resultados vêm. E continuando com o Zeca, seja feliz e agradeça, por tudo que Deus, ou o acaso, te deu.
Autor: Juan Figueiredo
