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Em outubro, as vitrines se colorem, monumentos públicos ganham luzes vibrantes, grandes corporações estampam laços coloridos em seus produtos e o comércio lucra com a estética da conscientização. O “capitalismo rosa” vende a ideia de que prevenir o câncer de mama é apenas uma escolha individual. No entanto, por trás da propaganda e da tinta que decora as cidades, a realidade das mulheres brasileiras que dependem da saúde pública é cinzenta, marcada pela desigualdade brutal de acesso à mamografia e por uma crônica lentidão estrutural.

A conscientização de fachada esbarra nos números alarmantes do próprio Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula como meta ideal uma cobertura de 70% de mamografias para rastreamento, o Brasil amarga uma taxa nacional que mal ultrapassa os 22%. Na rede privada, realizam-se 36,4 mil exames a cada 100 mil mulheres; no SUS, esse volume desaba para meras 16,7 mil mamografias por 100 mil usuárias. A escassez e a má distribuição geográfica de mamógrafos funcionais criam vazios assistenciais inaceitáveis. Em estados como Roraima e Tocantins, por exemplo, a cobertura desce aos níveis críticos de 3,5% e 6,1%, respectivamente.
Essa ineficiência no acesso direto ao exame primário gera um efeito cascata letal. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta o surgimento de 78.610 novos casos anuais de câncer de mama no país entre os anos de 2026 e 2028. Porém, por falta de diagnóstico precoce, estima-se que entre 30% e 54% dos casos no SUS já chegam em estágio avançado (estádios III ou IV), uma realidade que afeta apenas de 13,5% a 17% dos pacientes que possuem planos de saúde privados. Em mulheres jovens na faixa dos 20 aos 29 anos atendidas pelo SUS, a taxa de descoberta tardia atinge impressionantes 70%.
A barreira não termina no diagnóstico: ela se estende para a chamada “fila da morte”. Embora a Lei Federal nº 12.732/2012 determine o teto de 60 dias para o início do tratamento após o diagnóstico, quase 44% das pacientes do SUS esperam além desse limite legal, enquanto o tempo médio entre o laudo e o primeiro cuidado médico é de 93 dias no serviço público, contra 41 dias na rede particular.
O resultado final desse descaso sistêmico se traduz em certidões de óbito. Os dados oficiais registram que o número de mortes decorrentes do câncer de mama disparou no Brasil, saltando de patamares históricos de 8 a 10 mil óbitos no início dos anos 2000 para 21.668 mortes registradas recentemente. A vulnerabilidade social dita quem vive e quem morre: estudos apontam que o risco de morte para uma paciente tratada exclusivamente pelo SUS é 53% maior em comparação à rede privada, mesmo quando a doença é identificada no mesmo estágio clínico. Além disso, a sobrevida em 10 anos para casos descobertos em estágio III desaba de 55,6% no privado para apenas 39,6% no SUS.
O Outubro Rosa virou uma cortina de fumaça estética. Pintar fachadas de rosa não substitui aparelhos funcionando, agilidade nas biópsias e tratamento oncológico em tempo hábil. Enquanto as políticas públicas de saúde falharem em garantir o direito básico ao exame, a campanha continuará sendo uma celebração vazia que lucra com a imagem da prevenção, enquanto condena milhares de mulheres periféricas, negras e de baixa renda a morrerem de uma doença perfeitamente tratável. O Brasil não precisa de mais laços cor-de-rosa; precisa de mamógrafos funcionando e de respeito à vida das mulheres o ano inteiro.
Fonte: Inca
