Foto/divulgação: Thaynara Andrade
Primeira porta-bandeira do Botafogo Samba Clube e segunda do Salgueiro, Beatriz Paula explica o que pode e o que não pode na hora de reverenciar o pavilhão
Para quem está acostumado a acompanhar as apresentações na quadra, o gesto de se aproximar, tocar ou beijar um pavilhão pode parecer uma simples demonstração de carinho. Para quem vive a função de porta-bandeira, porém, cada aproximação tem um significado. Beatriz Paula conhece essas situações de perto e conta que ainda é comum presenciar pessoas que não sabem como agir diante do símbolo da escola.
“Na minha visão, é um ato de desrespeito. Infelizmente, na maioria das vezes, não acontece nada. A pessoa simplesmente toca. Quando tem um harmonia cuidando do pavilhão, ele pede para sair. Às vezes a gente mesmo vê ou algum diretor pede para não tocar.”
A porta-bandeira já presenciou situações em que pessoas se aproximaram para tirar fotos ou beijaram o pavilhão enquanto ele estava erguido durante uma apresentação. Em alguns casos, a atitude acontece tão rapidamente que não há tempo para qualquer intervenção.
O cuidado, segundo Beatriz, não se limita ao momento em que o casal está na avenida. Para ela, o pavilhão deve receber a mesma atenção durante ensaios, apresentações e eventos, além de ser tratado com cuidado quando está fora da escola ou guardado em casa.
“Independente se é um ensaio, se é um momento ou se é oficial, é o pavilhão da escola e precisa ser respeitado. Precisa ser tratado igual.”
A própria reverência também possui códigos. Beatriz explica que, em determinadas situações, a porta-bandeira apresenta o pavilhão para que uma pessoa faça uma reverência, mas isso não significa que ela será necessariamente autorizada a beijá-lo. A forma como a pessoa se apresenta também é levada em consideração.

“Quando a gente vai dar o pavilhão para alguém reverenciar, se a pessoa está de boné e não tira, a gente entende que ela não está preparada para aquele momento. Se o homem está de bermuda, a gente pode fazer a reverência, mas não dá para beijar o pavilhão. A pessoa também precisa entender que existem esses cuidados.”
Para Beatriz, esses conhecimentos são construídos principalmente pela convivência com outros profissionais e pela experiência. Ao longo da carreira, ela também participou de workshops voltados à formação de casais de mestre-sala e porta-bandeira, buscando compreender melhor as tradições e os procedimentos que envolvem a função.
O cuidado continua longe da avenida. Em casa, Beatriz não deixa o pavilhão aberto e evita colocar o mastro no chão. Até os momentos de lavar, passar e amarrar o tecido exigem atenção.
“É uma joia, é a coisa mais preciosa que tem numa escola de samba.”
A relação também envolve fé. Antes de entrar na avenida, Beatriz costuma fazer uma oração, agradecer pelo caminho percorrido e pedir proteção. Há cerca de três anos, passou ainda a levar o pavilhão para ser abençoado por um padre antes do Carnaval.
Por trás de todos esses cuidados existe uma relação que, para ela, vai muito além da função.
“Você cuida, você abraça, você beija, você faz tudo. Você cuida como se fosse seu filho, como se fosse a coisa mais importante da sua vida. E não deixa de ser. É uma das coisas mais importantes da nossa vida que é o pavilhão.”
É essa relação que ajuda a explicar por que gestos que podem parecer banais para quem assiste ao Carnaval têm outro peso para quem conduz um pavilhão. O pavilhão de uma agremiação carrega a identidade e o sentimento de pertencimento de uma escola inteira.
Fonte: Luana Viard

