Foto/divulgação: (capa/de Juliane): Isabella Morriconi
Originalmente lançada em 1980, a canção homenageia Marli Pereira dos Santos, a Marli “Coragem”, que se tornou símbolo da resistência à violência policial
No dia 20 de agosto, chega às plataformas uma nova versão de Juliane Gamboa para “Coragem Mulher”. Composição de Ivan Lins e Vitor Martins lançada originalmente em 1980, a canção ganha o streaming como single, em um dueto de Juliane com o próprio Ivan Lins.
Desde o lançamento de “Jazzwoman”, em 2024, a cantora e compositora vem ampliando o alcance de sua arte. Trafegando com segurança por um repertório plural em seu álbum de estreia, Juliane foi indicada ao Latin Grammy na categoria Artista Revelação em 2025, concorrendo com indicados de países de língua espanhola.
“Coragem Mulher” se conecta diretamente à trajetória de Juliane Gamboa, suas vivências e convicções como mulher e artista negra. Partiu de João Lins, filho do compositor, a sugestão de trazer à luz a canção que homenageia Marli Pereira dos Santos, a Marli “Coragem”, que se tornou símbolo da resistência após denunciar 12 policiais militares pelo assassinato de seu irmão, Paulo Pereira Soares, em 1980. Treze anos depois, o filho de Marli também seria morto pela polícia. “Estava procurando uma música inédita para o meu próximo disco e fiquei muito tocada, muito mexida com toda a história, além de impressionada por nunca ter ouvido falar no nome de Marli Pereira Soares, mesmo estando há alguns anos dentro do movimento negro. Tudo o que essa música simboliza tem muito a ver com quem eu sou, com a história das mulheres da minha família”, define Juliane.

Ivan Lins conta que a ideia de homenagear Marli com uma canção partiu de Vitor Martins, depois que os dois souberam do caso pela imprensa: “Nunca tínhamos visto uma mulher peitar a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que já tinha fama de muito violenta. Os policiais ameaçaram matar a ela e a todos da família, caso falassem alguma coisa, mas a Marli não se intimidou: foi ao comandante, no quartel, e os denunciou. Botaram as tropas em formação e ela foi apontando. A gente se comoveu muito com a história dela e achávamos que a música poderia também ajudar a protegê-la. Imagino que hoje ela tenha uns 70 anos, viva em outro lugar e com outro nome”.
Segundo Juliane, Ivan Lins sempre comentou que gostaria de ouvir “Coragem Mulher” interpretada por uma mulher. “Esse lindo encontro com o Ivan, 46 anos depois, vai contar essa história de outra maneira, mas, ao mesmo tempo, nossa realidade ainda é muito parecida. Eu espero que essa música toque o coração de todos e traga a reflexão de que muito ainda precisa ser feito. De que a gente precisa ter muita coragem”, reflete Juliane.
Ivan Lins endossa: “Tenho muita esperança de que a Juliane consiga, através dessa canção, mexer com as pessoas. Politicamente é necessário, também. Tudo é política em arte, e é importante que as novas gerações se comprometam a melhorar o Brasil no sentido humanístico. A intolerância racial, social, religiosa, cresce no mundo todo. Canções como essa são cada vez mais necessárias”.
Ressignificada, a canção “Coragem Mulher” captura ainda a emoção do encontro da artista com o compositor, cuja obra Juliane conheceu através das intérpretes que o gravaram, como Elis Regina: “Foi muito generoso, da parte do Ivan, vir gravar, trocar ideias. Gosto de fazer música com sinceridade, então, me senti em casa, muito abraçada”, conclui.
Fonte: Belinha Almendra

