Ricardo Siri_Jardineira_cosmos - Foto/divulgação
Serão apresentadas cerca de 20 obras inéditas, feitas com mel, cera de abelha e própolis, que integram arte, natureza e sociedade
Há cerca de oito anos, o artista transdisciplinar Ricardo Siri começou a estudar e a criar abelhas nativas brasileiras. Esse processo lhe rendeu prêmios, como o terceiro melhor mel do Brasil, e transbordou para a sua criação artística. O resultado será apresentado pela primeira vez na exposição “PRO-POLIS”, que será inaugurada no dia 27 de junho de 2026, no Museu Histórico da Cidade, na Gávea, Rio de Janeiro. Com curadoria de Fernanda Lopes, serão apresentadas cerca de 20 obras inéditas, entre pinturas e esculturas, produzidas com mel, cera de abelha e própolis. “Os trabalhos estabelecem uma ponte entre natureza, cidade e cultura, revelando processos invisíveis de construção coletiva, proteção e transformação”, afirma o artista.
“Em PRO-POLIS, Ricardo Siri transforma materiais produzidos pelas abelhas em dispositivos de pensamento. Ao trazer mel, cera e própolis para o campo da arte, o artista nos convida a refletir sobre formas de coexistência, cuidado e construção coletiva que atravessam tanto a natureza quanto a vida em sociedade. Seu interesse não está em representar a natureza, mas em trabalhar a partir dela. Seus materiais carregam histórias, geografias e relações ecológicas complexas”, diz a curadora Fernanda Lopes.
A própolis – substância utilizada pelas abelhas para proteger e imunizar a colmeia – torna-se matéria pictórica, em obras abstratas. O material, normalmente associado à defesa e à saúde do organismo das abelhas, é transformado em pintura, criando superfícies orgânicas com tonalidades naturais de marrom, verde e vermelho. “Nas pinturas, a própolis atua simultaneamente como matéria, cor e arquivo. Produzida a partir de resinas coletadas pelas abelhas em diferentes paisagens, ela traz para a superfície da obra vestígios de territórios, vegetações e ciclos naturais que permanecem inscritos em sua materialidade”, conta a curadora. Algumas obras incorporam também geoprópolis, mistura de terra e própolis produzida por espécies como as abelhas mandaçaia, ampliando o diálogo entre arte, território e biologia. “As pinturas revelam texturas, transparências e densidades próprias desses materiais, trazendo para o campo da arte uma matéria viva que carrega em si a memória vegetal das paisagens visitadas pelas abelhas”, ressalta Siri.
A exposição apresentará também quadros nos quais o artista cria estruturas a partir de folhas de cera de abelha, usando a história da arte como referência. Nas obras chamadas “Estudos para Movimento Mel Concreto”, ele faz uma alusão ao Movimento Neoconcreto, um dos mais importantes da arte contemporânea, surgido em 1959. “Eu junto a cera, derreto e faço uma folha, que passo no alveolador, que a deixa hexagonal, e crio estruturas, sempre muito matemáticas. De certa forma, todos os trabalhos falam de geometria, porque as abelhas são muito geométricas”, conta Siri, que é formado em engenharia civil.
Ampliando a pesquisa sobre os movimentos artísticos, Siri também faz referências a importantes nomes da história da arte, como Piet Mondrian (1872 – 1944), reproduzindo as formas e as cores de sua obra, com cera de abelha e mel em natura, em trabalhos que chamou de “Meldrian”. As cores vêm da própria cera, sem pigmentos. Em seus estudos, Siri descobriu que cada espécie de abelha produz a cera de uma cor, e, muitas vezes, dentro da mesma colmeia, da mesma espécie, há variação de cores.
Ainda com as folhas de cera de abelha, cortando e montando, o artista criou QR codes, que, para sua surpresa, podem ser lidos por aparelho celulares e levam o público para dentro das colmeias, com mais informações sobre a vida das abelhas que criaram aquela cera. A tecnologia também fará parte de pinturas inspiradas nas estruturas das colmeias, feitas com própolis e pigmentos naturais de flores e plantas do quintal da casa do artista, que são polinizadas pelas abelhas, como bougainville, urucum e café. Em um primeiro olhar, o espectador verá formas hexagonais, de cores diversas. Ao fotografá-las, no entanto, aparecerão imagens concretas na tela, como uma abelha e uma flor, ampliando a experiência do público. “As pessoas estão o tempo todo com o celular nas exposições e, muitas vezes, fotografam sem nem olhar a obra direito. Então é uma brincadeira com o olhar, uma forma de chamar a atenção para o que está ali, uma forma de polinizar as pessoas”, diz o artista.
A maioria dos trabalhos são feitos com materiais vindos do meliponário do artista, que tem esse nome devido às melíponas, que são as abelhas nativas brasileiras. No entanto, no Brasil, encontramos outras espécies de abelhas, vindas de outros países, mas que não polinizam o nosso bioma. Em uma homenagem a estas abelhas, e aos milhares de estrangeiros que vieram para o Brasil, com os próprios avós do artista, ele criou obras que trazem imagens de mapas-múndi, feitos com cera de abelhas estrangeiras, encontradas em nosso país. “Todos esses mapas são para falar desse lugar de migração das abelhas. E até uma homenagem a elas, porque eu acho que elas são bem-vindas”, diz.
Completam a exposição, estruturas em formatos de colmos, feitos com corda e cera de abelha, que se relacionam com os trabalhos da exposição e também com a pesquisa que o artista vem desenvolvendo há muito tempo sobre os ninhos.
Serviço: Exposição “PRO-POLIS”, de Ricardo Siri
Abertura: 27 de junho de 2026, às 9h
Exposição: até 22 de agosto de 2026
Museu Histórico da Cida (MHC) [3º andar]
Estrada Santa Marinha, s/n – Gávea – Rio de Janeiro – RJ
De terça a domingo, das 9h às 16h.
Entrada gratuita
Curadoria: Fernanda Lopes
Fonte: Beatriz Caillaux

