Sede da CasaNem - Fotos/divulgação: : Arquivo pessoal CasaNem
Do cursinho pré-vestibular às ruas do Brasil: como um espaço criado no Rio virou referência nacional no acolhimento às pessoas LGBTQIAPN+ em vulnerabilidade social
Em fevereiro deste ano, a CasaNem chegou à sua décima primavera. São 10 anos de portas abertas para quem mais necessita. Uma década de luta, ocupações, despejos, e conquistas que nenhuma estatística consegue resumir completamente. Mais do que uma data no calendário, o aniversário é uma chance de olhar para tudo que foi construído e entender por que esse espaço continua sendo tão necessário.
Fundada em 2016 pela ativista Indianarae Siqueira e gerida pelo grupo Transrevolução, a CasaNem foi o primeiro espaço de acolhimento para pessoas LGBTQIAPN+ do Brasil. Mas a história começa um pouco antes, em 2015, com o PreparaNem, um cursinho pré-vestibular para pessoas trans que rapidamente mostrou que a demanda era bem maior do que uma sala de aula poderia conter. A vulnerabilidade social era alta demais para ser ignorada, e foi assim que a necessidade de um espaço de moradia e acolhimento ficou evidente.
Um refúgio que virou política pública
Depois de muitos anos de luta, ocupações e despejos, a CasaNem conquistou a cessão de sua sede no Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. O espaço oferece moradia, alimentação, acesso a serviços de saúde e, acima de tudo, a possibilidade de viver sem julgamento e longe das violências familiares e das ruas. O acolhimento funciona em período integral.
“Minha inspiração para criar o espaço foi proporcionar a oportunidade que não tive”, afirma Indianarae Siqueira, lembrando também das trajetórias de Brenda Lee e Jovana Baby Cardoso como referências que a guiaram na fundação do projeto no Rio.
Em 2025, a CasaNem deu mais um salto. Inaugurou o Centro Estadual Comunitário de Cidadania CasaNem Indianarae Siqueira, que passou a integrar o programa estadual Rio Sem LGBTIFobia, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Estado, em parceria com a UERJ. “Com funcionamento de quarta a domingo, das 21h às 5h, o Centro é o único equipamento de atendimento noturno para a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil” destaca o coordenador técnico do equipamento, Rafael Gomes.
“A equipe é multidisciplinar e conta com profissionais de psicologia, assistência social, área jurídica e administrativa, além de assessoria técnica e coordenação”, finaliza o coordenador.

O PreparaNem, 11 anos depois
O cursinho que deu origem a tudo isso chegou ao seu décimo primeiro ano com novidades. A CasaNem inaugurou uma Giroteca equipada com tablets, computadores, equipamentos de audiovisual, 4 mil livros virtuais e 2 mil livros físicos. O projeto foi realizado com o apoio do Rio Sem LGBTIFobia e da Fundação Leão XIII, e vai ampliar o atendimento também à comunidade do entorno, incentivando a leitura, a pesquisa e a empregabilidade dos acolhidos.
As aulas do PreparaNem têm início, todos os anos, no mês de março. Para quem acompanha o projeto de perto, o recado que fica é o mesmo de sempre: não se trata apenas de passar no vestibular. É sobre o direito de existir e brilhar em todos os lugares.
Uma rede luta e apoio que cresce pelo Brasil
O impacto da CasaNem foi além das fronteiras do Rio. Em 2020, em plena pandemia, Indianarae Siqueira fundou a REBRACA LGBTQIAPN+, a Rede Brasileira de Casas de Acolhimento. Hoje, a rede articula 22 casas distribuídas nas cinco regiões do país, oferecendo abrigo e proteção integral a pessoas expulsas de casa, vítimas de violência, discriminação e abandono familiar.

Em 2025, o modelo ganhou ainda mais força com o lançamento do projeto ACOLHER+, iniciativa do Governo Federal por meio do MDHC e da Secretaria Nacional LGBTQIAPN+. O programa foi reorganizado e ampliado sob o nome Casas da Cidadania LGBTQIAPN+, com verba garantida, portaria publicada e implementação prevista ao longo de 2026. “Agradecemos a todas as pessoas envolvidas na criação e transformação da CasaNem desde o início até hoje”, diz Indianarae Siqueira.
Projeto Kuzinha Nem completa 6 anos
Além de ser um projeto que garante a segurança alimentar vegana e sem sofrimento animal para as pessoas acolhidas na CasaNem, promovendo mais de 300 refeições mensais preparadas no espaço, ainda mantemos a distribuição de mais de 800 quentinhas por mês para pessoas em situação de rua, promovemos a doação de cestas básicas , legumes e frutas para pessoas LGBTQIAPN+ e famílias em vulnerabilidade alimentar e acolhimento de pessoas em situação de rua, expulsas de casa e que sofrem violações de direitos”, explica Indianarae, idealizadora do projeto.

A iniciativa oferece debates sobre proteção animal, acolhimento para animais abandonados, cursos de gastronomia vegana sem sofrimento, fomentando a economia criativa e o reaproveitamento de alimentos, geração de renda, e também funciona como espaço cultural da CasaNem para eventos.
Muitas mais que uma cozinha, o espaço carrega história de luta, resistência e superação. Entre grãos, frutas, legumes e verduras há histórias de abandono, fome, rejeições , dor, mas também de superação e acolhimento com criação de laços que vão se firmando através das refeições compartilhadas.
Essas refeições comunitárias elas alimentam, mas também ensinam sobre trabalho em grupo, apoio em comunidade e empatia aos mais vulneráveis.
Como apoiar
Dez anos de história só existem porque muita gente acreditou e continua acreditando. Se você quer fazer parte disso, a CasaNem segue aberta a doações. Na verdade ela vive de doações, é um organismo vivo onde cada cidadão pode ajudar a distribuir mais amor, cuidado, cidadania e respeito ao próximo.
Para fazer parte desta corrente de amor e força, faça a sua contribuição pelo link: https://campaign.doare.org/campanha/29e5d100-0463-483b-948f-d2e8401cbe43/ajudeacasanem/grupotransrevolucaocasanem
Fonte: Ana Magal

