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Foto/Divulgação: Fábio Cabral

Lendas e tradições orais

Muitas são as manifestações culturais de fé e tradições, além de lendas, na Praia das Pedrinhas, orla de São Gonçalo (RJ), um dos patrimônios ambientais e culturais mais procurados da cidade, por onde circulam milhares de visitantes aos finais de semana.

Pela tradição oral, a comunidade de pescadores artesanais e caiçaras conta lendas diversas. Uma diz que são ouvidas vozes no manguezal próximo à comunidade durante as noites, que tem a presença, inclusive, de ariranhas. Tais fatos levam os indivíduos a temerem a localidade nos períodos noturnos.

Foto/Divulgação : Marcos Santana

Outra lenda é a da Praia da Luz, vizinha à Praia das Pedrinhas, que abriga uma capela dedicada à Nossa Senhora da Luz, criada nos tempos da colonização portuguesa no Rio de Janeiro e em São Gonçalo no século XVII. A lenda relata que um pescador havia desaparecido no mar da Baia de Guanabara em meio a uma tempestade. Sua esposa, muito devota da santa, fez uma prece e foi atendida com o retorno do marido então desaparecido. Em agradecimento ao milagre, a devota mandou erguer a capela de Nossa Senhora da Luz, na Praia da Luz, um dos marcos arquitetônicos, artísticos, religiosos e culturais do município fluminense, que fica na ilha de Itaóca. Esta ilha  abriga também a história de uma casa no alto de uma montanha que teria pertencido ao narcotraficante colombiano de drogas Pablo Escobar (1949-1993).

Existe também a lenda da “Pedra Lascada” da ilha de Tapoamas (em frente a Praia das Pedrinhas), que teria sido atingida por um potente raio em plena Baia de Guanabara. Ainda na Baía, está localizada a ilha de Brocoió, onde são ouvidas vozes indígenas dos tamoios, que habitavam a região muito antes do tempo da chegada dos portugueses à região.

 

Foto/Divulgação : Marcos Santana

Além disso, aquela região da Baia de Guanabara abriga muitas outras lendas e histórias narradas pela comunidade, como a da Ilha do Sol, onde viveu e morreu a atriz Luz del Fuego, tema de filme estrelado pela atriz Lucélia Santos nos anos 1980 (Luz del Fuego, 1982), que teria sido um dos primeiros lugares de prática do naturismo e do nudismo no Rio de Janeiro. Conta-se que ela teria sido assassinada, em 1967, junto de um de seus funcionários, fato que impactou muito a população da época e é lembrado até os dias atuais.

 

A comunidade e a fé

Lendas e histórias a parte, a comunidade da Praia das Pedrinhas também convive com significativas manifestações de fé, como os cultos ao mundo sagrado que envolvem as águas. Neste sentido, duas manifestações são relevantes pelas suas proximidades com a cultura caiçara e da pesca, que são as representações de Iemanjá e São Pedro, duas figuras associadas tanto às águas quanto às atividades de pesca. Deste modo, a comunidade convive com as manifestações de devoção à orixá Iemanjá e ao santo Pedro em um ambiente de harmonia, respeito e tolerância religiosa e cultural, em eventos que ocorrem anualmente no mês de fevereiro e junho.

Foto/Divulgação : Marcos Santana

A cultura local, deste modo, mostra a força de suas lendas, histórias, tradições, manifestações de fé e outras, que formam seu patrimônio imaterial, além de seus artefatos, objetos, lugares, construções que formam seu patrimônio material, como a estátua da Sereia, feita em homenagem à Iemanjá, e a imagem de São Pedro, feita em homenagem ao santo, que também conta com uma capela que está em construção tanto em sua homenagem quanto à simbologia católica. Portanto, é possível ver a presença da fé tanto na cultura imaterial quanto na cultura material da comunidade.

Manifestações à Iemanjá

Iemanjá é uma orixá do candonblé venerada por vários integrantes da comunidade. Todo dia dois de fevereiro, os devotos se reúnem e organizam grandes atos de fé e grandes festas em sua homenagem, referenciadas pelas tradições de matrizes africanas pelo Brasil. A orixá é celebrada devido à sua influência sobre as águas, os seres aquáticos, os navegantes e os pescadores.

 

Foto/Divulgação: Fábio Cabral

No dia, o evento, que se chama Presente de Iemanjá, inicia-se cedo, com o “Xirê para a divindade”, que é “seguida de procissão até o mar”, e vai reunindo cerca de duas mil pessoas, de acordo com o morador, pescador e comerciante local Fábio Cabral. Nos rituais ocorrem preces, orações músicas, danças, oferendas e outros, de acordo com os rituais da religião de matriz africana, que é o candonblé. Os devotos vestem roupas tradicionais e sagradas, assim como ornamentos, objetos, imagens e outros artefatos simbólicos e religiosos.

A culminância dos rituais e dos festejos se dão com uma grande celebração que envolve comidas tradicionais, assim como músicas, danças e outros da nossa cultura popular que, além da comunidade local, atrai visitantes de várias de regiões do município e também de cidades vizinhas.

 

Manifestações a São Pedro

São Pedro é outro homenageado pela comunidade da Praia das Pedrinhas todo dia vinte e nove de junho, data em sua homenagem por todo mundo católico. Ele é associado aos pescadores.

 

Foto/Divulgação : Marcos Santana

pelo fato, segundo relatado na Bíblia Sagrada, ter sido discípulo de Jesus Cristo e pescador. Deste modo, a representação de São Pedro tem ligação direta com as atividades dos pescadores e com a pesca de um modo geral.

Logo no início da manhã, ocorre a queima de fogos na alvorada e no meio da manhã ocorre a missa solene, em homenagem a São Pedro, na capela construída pelos pescadores e com a imagem do santo, que fica permanentemente exposta na praça principal da Praia das Pedrinhas, ao lado da Associação dos Pescadores. O ritual segue a liturgia católica do dia e é celebrada por um sacerdote convidado que vem da Igreja Matriz de São Gonçalo ou da Arquidiocese de Niterói, especialmente para o evento.

Após a liturgia religiosa ocorre a “barcaida” (cortejo de barcos) pela Baia de Guanabara, ilhas e arredores da Praia das Pedrinhas, em homenagem ao santo, como relata o morador e pescador Jorge André, que conduz seu barco, chamado Ana Lígia, em homenagem à sua filha, durante o trajeto de quilômetros mar a dentro. Além disso, ocorrem competições marítimas, corridas de barcos a remo e outros, culminado com um almoço servido à comunidade e aos visitantes com o cardápio do dia dedicado aos frutos do mar, peixes e outros.

Após as celebrações religiosas, esportivas e culturais, outras manifestações da cultura popular emergem com a promoção de hits do momento que vão preenchendo a programação ao longo do dia até o entardecer, envolvendo cerca de duas mil pessoas.

 

Entre a orixá e o santo: a comunidade e suas identidades

Moradores da comunidade, como Fábio Cabral e Jorge André, consideram que essas são as duas maiores manifestações culturais populares da Praia das Pedrinhas e daquela região da Baía de Guanabara. As homenagens a uma orixá do candomblé e a um santo católico revelam não só devoções às entidades espirituais que norteiam o mundo marítimo e as atividades pesqueiras da comunidade, mas também o respeito mútuo entre as duas formas de representação e manifestação da fé da comunidade, do entorno e dos visitantes que anualmente reúnem cerca de quatro mil pessoas nos dois eventos.

Foto/Divulgação: Fábio Cabral

As celebrações e festividades mostram, assim, as possibilidades de respeito mútuo à fé de cada representação. De um lado, as duas manifestações mostram a força da fé e da cultura da comunidade, marcas importantes para a construção e manutenção das identidades e das diferenças culturais e suas especificidades, particularidades e multiplicidades.

De outro lado, essas manifestações, atraindo milhares de pessoas, dinamizam e incrementam o comércio, o turismo e o lazer da região, do município de São Gonçalo, atraindo gonçalenses e visitantes de cidades vizinhas como Niterói, Itaboraí, Maricá e outras.

Diante desses eventos, podermos colocar em destaque a força da cultura, da identidade, da memória da comunidade pesqueira da Praia das Pedrinhas e as possibilidades de intercâmbios culturais entre as culturas imateriais e materiais da própria comunidade e dos visitantes que participam de suas manifestações.

Autor: Marcos Santana

 

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