Cada um tem em si o direito, talvez o dever, de escolher uma lente pela qual se olhará o mundo. Ótica essa pode ser inventada ou apropriada. De Marx, que se debruçava para a história a partir da luta de classes, a Adam Smith, cujas relações de tomada de decisão, ou escolha para onde o tempo se escrevia, eram embasadas puramente na relação entre capital, lucro e propriedade privada. Dentre outras tantas, há aqueles que olham a vida como se fossem um jogo: repleta de histórias, regras, perdas e vitórias.
Johan Huizinga, em Homo Ludens, defende o jogo como elemento fundamental anterior à própria cultura, como uma atividade voluntária, com regras, tensões e alegrias. Pelo dicionário, temos jogo como: atividade cuja natureza é a diversão, o entretenimento submetida a regras que estabelecem quem vence e quem perde. Ao jogar, aprendemos sobre a vida e criamos cultura. Vamos nos atentar, nesse artigo, não no lúdico como forma fora da realidade mas como motor da história, uma maneira de se ver o mundo. A partir dessa ótica, partiremos para uma aventura mais específica: uma reflexão acerca da curiosidade.
Olharemos então, para um jogo específico, o xadrez. Atemporal, um jogo secular que, até hoje, se mantém entre os mais jogados do mundo. Esse possui regras simples: um tabuleiro 8×8, peças diferentes, cada qual cada possui uma regra de movimentação e ganha quem derrubar o rei adversário (xeque-mate). Jogo esse que, com todo poder computacional que temos hoje, ainda não está “fechado”, ou seja, ainda não se é viável estudar exaustivamente todas as possíveis variações de partidas, por força bruta, não sendo praticável saber qual a melhor maneira de se jogar. Um jogo em que a criatividade tem a oportunidade de brilhar. Apesar das habilidades enxadrísticas das máquinas, hoje, superarem os humanos, até mesmo nelas, é comum ver ideias e conceitos novos surgirem. Seja por humano ou máquina, o xadrez atiça a curiosidade por mais de mil anos e nos mantém criativos até hoje.
Observemos mais específico, agora, dentro do próprio xadrez. Ao olhar para o movimento do Cavalo (em “L”) uma dúvida surge: Seria possível então “passear” com o cavalo por todo o tabuleiro sem sequer repetir uma única casa? Ou melhor: voltar para o ponto de partida? Perguntas essas estudadas e refletidas por Leonhard Euler, um matemático suíço (convido você a tentar fazer o “passeio do cavalo”, como o problema é conhecido, em um tabuleiro). Um clássico. Um problema famoso que atravessa a história. Mas, respondê-lo ajudaria a melhorar no xadrez? Provavelmente não. Para que ele serve, então? Nada! Em seu sentido mais puro, apenas curiosidade e criatividade. Ainda assim, resolver esse tipo de problema traz resultados inesperados, como a inspiração para o desenvolvimento de uma, recente, área do conhecimento, a teoria dos grafos. Do nada, surgem mundos.
Seria Euler então demiurgo, um criador de mundos? A base da criatividade pode ser entendida, não somente como o pensar diferente, de forma organizada. Nesse problema vemos primeiro um olhar amplo para as regras do jogo. Depois, um recorte: para o movimento particular das peças, para tal, o cavalo foi a escolha. Após isso, uma transformação da ótica tradicional das regras, mas mantendo as características do mundo, nesse primeiro momento, o movimento da peça e o tabuleiro. Depois, pensa-se na expansão desse mundo, gerando a pergunta a ser respondida. Resposta essa, deve ser elaborada com base nas regras já existentes, e, se for o caso, com as características expandidas (vale também para tabuleiros maiores?). E assim, a ideia criativa surge como uma leve brisa em suaves galopes nesse passeio a cavalo.
A criatividade inventiva surge ao pensar conforme as regras, se quiser, chame-as também de lógica, de leis, de física, da história, da luta etc. “Nada se cria, mas tudo se copia” frase popularmente conhecida entre bares e músicas, onde se traduz a ideia de expansão de mundos, e não necessariamente de criação absoluta. Aprendamos então com as crianças: espalham seus brinquedos a frente e pensam “fora da caixa”, inventando brincadeiras, ideias, alegria e criatividade. Mas com a mente de gente crescida: tratem ideias como brinquedos, sua forma de ver a vida como regra e (re)inventem.
Fonte: Juan Figueiredo
