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Foto/Divulgação

Espaço Fau, pioneiro na resistência LGBTQIAPN+ há quatro décadas nas praias cariocas, perdeu suas bandeiras características e acumula prejuízos

Desde 1985, a Barraca da Fau representa muito mais do que um ponto de venda na areia de Copacabana. É um espaço de acolhimento, resistência e memória viva da comunidade LGBTQIAPN+ no Rio de Janeiro. Mas a padronização imposta pela gestão municipal em 2024 tirou as bandeiras que marcavam o local, deixando Fátima Mello, conhecida como Fau, desolada.

Em um post, o jornalista e ativista Rafael Gomes chamou atenção para a importância histórica do espaço: “Antes do posto 9 em Ipanema, antes de redutos LGBTQIA+ nas praias serem referência, a Fau e sua companheira Rose já enfrentavam a LGBTfobia, a opressão da polícia, guarda municipal, e os inúmeros prefeitos que passaram no decorrer de quase 30 anos no Rio”.

“Eu me senti pelada. É como se tivesse me tirado uma roupa minha, me exposto. E aí a barraca ficou sem graça, ficou sem sal”, desabafa Fau sobre a retirada das bandeiras que identificavam seu espaço há décadas.

História de pioneirismo e acolhimento

Fátima começou com a barraca em 1985, dividindo o negócio com uma amiga. Em 1992, já sozinha, ela percebeu que o público reclamava da dificuldade em localizar o espaço. A solução veio da própria comunidade: “Um grupo se uniu, pegamos a canga de um, pegamos cabos de guarda-sóis e improvisamos uma bandeira gay. Em 1992, foi hasteada a primeira bandeira gay”, relembra.

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No ano seguinte, Fau decidiu transformar a barraca num verdadeiro refúgio. Conversou com frequentadores, fez levantamentos do que precisavam e, com ajuda de Cláudia Fênix, passou a confeccionar bandeiras da diversidade. Introduziu a bandeira da Visibilidade Lésbica, a Trans e a dos Ursos. “A gente criou o nosso espaço. Um espaço onde você pode se sentir bem, onde as pessoas interagem entre elas. Quase um quintal familiar”, conta.

Décadas de resistência e enfrentamento

Internacionalmente conhecida como a “Bolsa de Copacabana”, a barraca enfrentou décadas de LGBTfobia, opressão policial e da guarda municipal, consolidando-se como o primeiro espaço de resistência LGBTQIAPN+ nas areias cariocas.

Rafael Gomes reforça: “A Barraca da Fau foi e é o primeiro espaço de resistência, história e acolhimento, de alegria, diversão e enfrentamento à violência, de gays, lésbicas e travestis nas areias. Lugar este onde a comunidade nas décadas de 80/90 e 2000 se sentiam seguras”.

Um episódio em 1994 marcou Fau profundamente. Um grupo de travestis chegou à barraca após sofrer agressões de policiais. “Ali a gente acolheu, lavou e deu carinho para elas”, lembra. A partir daquele dia, a frequência de travestis cresceu, e Fau ganhou um carinho especial por essa parcela da comunidade. “Foi a turma que primeiro me abraçou”, emociona-se.

Higienização estética ou apagamento cultural?

Rafael Gomes destaca que a padronização imposta pela gestão municipal teve um impacto profundo: “A padronização das barracas imposta pela gestão municipal descaracterizou o espaço, que perdeu um pouco de cor e da referência, mas nunca, jamais, vai apagar as décadas de histórias e os corpos que construíram essa liberdade de ser quem somos”.

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A ativista-trans Indianarae Siqueira questiona: “A quem interessa a higienização estética das barracas das praias do Rio? Existe um projeto de higienização estética e gentrificação que quer controlar e apagar a multiplicidade de nossas expressões na cidade”.

Para Fau, que desde 2007 toca o Espaço Fau ao lado de Rose, a barraca perdeu parte essencial de sua identidade. Mesmo reconhecendo que surgiram outros espaços para a comunidade em Copacabana, ela enfatiza: “Que eles sejam acolhidos de verdade, que eles sejam tão vistos como um faturamento, mas como pessoas”.

O Espaço Fau fica em frente ao Copacabana Palace e permanece aberto, resistindo sem suas bandeiras, mas não sem sua história.

Confira depoimentos de Rafael Gomes e Indianarae Siqueira sobre o ocorrido no Espaço Fau:
Fonte: Ana Magal

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